Sobre desafios

“Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me”. (Mateus 16.24)
Do verdadeiro cristão, convertido de “corpo e alma”, Cristo exige uma vida transformada e santificada pela palavra. Esse é um requisito imprescindível àquele que pretende ser salvo e viver no Reino de Deus.

É o novo nascimento preconizado por Jesus, que busca produzir um bom testemunho do Senhor e da sua fé, que Nicodemos (lembra dele?) num primeiro momento não entendeu e muitos que se dizem cristãos ainda não entenderam, já que ora estão com os pés no barco do mundo, oram buscam colocar os pés no barco do Senhor.

Como vivemos num mundo governado pelos homens, servir a Deus, sem parcialidade, implica em batalhas diárias contra as obras da carne.

Alguns acreditam na possibilidade de evitarmos essas contendas com o famoso “jeitinho”, esquecendo-se que a opção por Jesus implica em medidas radicais, já que com “jeitinho” não chegaremos a Deus e Jesus não se presta a essa prática, tão comum a alguns brasileiros, que piamente acreditam ser possível, pelo fato de que alguém lhes ter dito que “deus é brasileiro”.

Para que nossas orações sejam ouvidas e atendidas, nosso modo de vida, necessariamente, precisa estar coerente com o dizemos e praticamos. Jesus espera que as nossas palavras, ações e testemunho sejam inequívocos, de maneira que os pecadores, mesmo os mais empedernidos, se decidam por Cristo.

Trata-se de um desafio e tanto. Como não é fácil pelejar com o mundo, precisamos estar cientes que alguns reveses podem ocorrer nesses embates.

Essas batalhas diárias me fazem lembrar de um sermão proferido por Antonio Vieira na cidade de São Luís do Maranhão, em 13 de Junho de 1654.

A fim de que possa meditar sobre o desafio enfrentado por Vieira, que um dia talvez possa ser enfrentado por qualquer um de nós, esclareço que antes desse sermão, ele desafiou os seus ouvintes a agirem, sem que houvesse uma pronta resposta.

Algum tempo depois fez ele novo sermão. Entre os presentes estavam integrantes do clero, autoridades, políticos e populares, todos considerados religiosos devotos, probos aos olhos da sociedade, seguidores dos rituais e freqüentadores assíduos, muito semelhantes aos fariseus do primeiro século.

Vieira os comparara ao sal da terra, enfatizando que Jesus lhes determinara que eles devessem, naquela terra, fazer o que faz o sal, cujo efeito é impedir a corrupção, para em seguida, referir-se à cidade de São Luiz do Maranhão, onde segundo ele, “não se via terra tão corrupta como aquela”, embora “tivesse tantos nela que tinham ofício de sal”, e lhes questiona: “qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção?”

Como nada fora feito, ele mesmo responde: “ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não se deixa salgar”.

E por que isso estaria a ocorrer? Ele mesmo responde: “se o sal não salga, seria porque os pregadores não pregam a verdadeira doutrina, ou porque os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina, não a querem receber”.

Ele vai mais além e diz aos presentes: “ou seria porque os pregadores dizem uma coisa e fazem outra; ou porque os ouvintes quem, antes, imitar o que esses fazem, do que fazer o que eles dizem?”.

Não satisfeito, ele, como se diz hoje, “chuta o balde”: “ou, seria porque os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites mundanos?”.

O resultado consta dos livros de história: o pregador, após a pregação, acabou por embarcar ocultamente em um navio que, na madrugada, zarpou para Lisboa e lhe salvou a vida, tal a ira demonstrada pelos seus ouvintes.

Vieira, seguindo os ensinamentos, entendeu o revés e não esmoreceu. Simplesmente sacudiu o pó das sandálias e se foi.

Todos nós, mais dia menos dia, enfrentaremos desafios ao pregarmos a Palavra de Deus, já que muitas vezes, seremos colocados diante de escolhas difíceis, nas quais os ouvintes não nos querem ouvir.

Jesus sempre foi bem sucedido por que sabia muito bem o que pregava. Ele confiava na Palavra de Deus. Entretanto houve ocasiões em que Jesus também teve que reagir perante os desafios; seus interlocutores não o quiseram ouvir. Nesses casos, ele não esmoreceu, apenas seguiu em frente, pregando o Reino de Deus. Por certo Ele espera que nós façamos o mesmo que ele fez.

(G.C. Russi).

Facebooktwittergoogle_plusredditpinterestlinkedinmail