Maternidade é dom de Deus

Maria entrou porta adentro do laboratório de exames clínicos, nem tirou seus óculos de sol, parou diante do balcão de atendimento e entregou à atendente sua guia numerada para a retirada do exame de gravidez. Murmurou algo parecido com um obrigado, virou as costas e andou em direção à saída. Na calçada, parada de costas para a porta, abriu o exame com as mãos ligeiras: POSITIVO.

Uma onda de adrenalina bateu na sua nuca, inundou seu cérebro e por um instante sentiu-se tonta, cambaleou, apoiou uma das mãos na parede atrás de si. Não conseguia acreditar no que estava escrito, leu de novo, virou a folha do exame para conferir seu nome no verso, sim, o exame estava mesmo com o seu nome completo.

O sol daquela tarde de fevereiro ficou mais intenso. Não sabia muito bem o que faria, mas tinha certeza de que precisava compartilhar esta informação com alguém, uma pessoa de confiança que a ajudasse a raciocinar. Estava tudo perdido. Maria sentia um misto de vergonha, culpa, medo, náuseas e fadiga. Queria desaparecer, se tornar invisível ou apenas acordar na sua cama e perceber que tudo tinha sido um pesadelo, mas, era real. Maria, perdida dentro de seus próprios erros, teria que tomar decisões e agir como adulta. Acabou ali, naquele momento, a sua adolescência.

Maria estava grávida, era uma jovem de quase 18 anos, sua família cristã era frequentadora regular de uma antiga igreja no bairro, seus pais professores na escola bíblica, seu irmão mais velho, um evangelista com pretensão a missões, e ela ali parada na rua, sendo esmagada pela vergonha de ter seu pecado exposto pela gravidez inesperada. Uma onda de medo e angústia sufocou sua alma, seus pensamentos ficaram confusos, acelerados e desordenados. Pensou que Deus a abandonara, que não a amava, não a compreendia e, agora, a castigava com aquela gestação.

Maria estava numa profunda escuridão. Gemeu desanimada, fez sinal para o ônibus parar, entrou, pagou sua passagem, sentou-se ao lado de uma jovem mulher com uma criança pequena no colo. A criança dormia completamente relaxada no colo da mãe que a enlaçava com cuidadoso amor, dando ao pequeno ser segurança e conforto. Aquela cena provocou em Maria um misto de ternura e pânico. Seus instintos maternais estavam aflorados, mas, como o peso de uma pedra de bigorna, sua culpa esmagava os seus afetos.

Depois de alguns dias com seu segredo entalado na garganta e após muitas conversas sussurradas com sua melhor amiga, entre lágrimas, Maria decidiu que teria a criança e que era o momento de contar sua situação aos seus pais.

Esta história é fictícia, mas conhecemos Marias, mães solteiras, adolescentes ou não, cristãs, de autênticas famílias crentes com vidas firmadas em doutrina saudável. O que faríamos se a Maria dessa nossa história fictícia fosse de nossa família ou de nosso círculo de irmãos em Cristo? Será que a nossa casa teria como abrigar a vergonha de Maria e dar a ela e à criança que vai nascer uma manjedoura, como Jesus teve, para vir ao mundo? Nossa igreja está preparada para amar e perdoar alguém que com seu pecado expõe toda a congregação? Seremos aquele corpo de Cristo que vai ficar com o dedo indicador no nariz de Maria e de sua família, dizendo a ela o quanto ela é culpada e pecadora? E como está Maria? Alguém afinal pensou em restaurar a relação de Maria com o seu Salvador?

Maternidade é o tema deste artigo, não qualquer maternidade, mas uma maternidade especial.

Garota, seu pecado está pregado na cruz de Cristo!

Aleluia! Irmãs, temos que dar graças aqui! Se você conhece aquele que morreu por nós, seu coração se derrete de gratidão todos os dias. O Senhor é doce e terno, afetuoso e majestoso. Ele vai te buscar, ovelhinha perdida, não tema, ele é o meu e o seu Senhor, ele foi esmagado na cruz pelo meu e pelo seu pecado e disse (sussurrou em meu ouvido certo dia), que nem eu e nem você, que um dia nos rendemos ao Salvador, devemos temer os homens e os seus desafetos (Lc 12.5), porque ele, o nosso pastor e Senhor, não vai perder nenhuma das ovelhas que seu Pai lhe deu! (Jo 10.28). Maravilhosa promessa!

Vamos dar uma volta nas Escrituras? Venha comigo, abra o seu coração, e vamos nos deleitar neste redentor.

Todas as vezes que vejo uma mulher envergonhada e culpada, eu penso naquela mulher de João 8.1-11, que foi levada a Jesus para ser apedrejada por ter sido pega em flagrante adultério. Lá estava ela sozinha, (onde está o homem com quem ela havia adulterado?) diante de Jesus, levada pelos escribas e fariseus, eles a julgavam e a condenavam à pena de morte, mas Jesus, calmo, manso e sábio, sem apoiar o pecado da mulher, mas com misericórdia dela, repeliu um a um de seus acusadores, apontando para o pecado deles, que, embora não fosse visível aos olhos, estava dentro de seus corações. Então, o Salvador, Jesus Cristo, pergunta à mulher a respeito dos que a acusavam, e ninguém mais a acusou, porque todos, sem exceção, somos pecadores.

O que diferencia o seu pecado, garota, do pecado dos outros? Nada! Porque todos carecemos da graça de Deus, da justiça de Cristo que nos justifica diante do Pai. Está escrito: Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós. (1João 1.10). Garota, somos todos pecadores, e entre nós não há nenhum juiz para te acusar. Se como aquela mulher, você se arrependeu de seu pecado e o confessou ao Senhor (Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a injustiça. 1João 1-9), você está perdoada por ele, e ele mesmo vai purificar e restaurar a sua vida (reparou que temos repetidamente a condicional “se”?). Volte-se para ele, e ele se achegará a você (Tg 4.8; Is 55.7), ele veio para te salvar, justificar, amar e te dar vida abundante (Jo 10.10) e eterna! (Jo 10.28)

Uma manjedoura para o bebê

Olá, família cristã, aqui estamos nós com Maria e o bebê, haverá lugar para essa dupla na casa de seus próprios pais? E na sua igreja, tem lugar para recebê-los? Maria pecou, caiu em tentação (“mas quem nunca?”), no entanto, já estamos na cena dois, e Maria e o bebê precisarão de misericórdia, reconciliação, apoio, correção, direção. Será que como família seremos capazes de lembrar-nos do quanto Jesus nos perdoou e de quanta misericórdia e graça tem nos concedido dia a dia? Podemos aprender com a parábola do credor incompassivo em Mateus 18.23-35, lembrou-se? Aquele credor que foi perdoado de uma dívida impagável, mas que não perdoou o seu conservo que lhe devia muito menos:

Então, o seu senhor, chamando-o, lhe disse: Servo malvado, perdoei-te aquela dívida toda porque me suplicaste; não devias tu, igualmente, compadecer-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti?

Uma embaixada para Maria

Maria precisa de reconciliação, nós, cristãos, somos embaixadores de Cristo, ministros da reconciliação; é minha e sua a tarefa de levar Maria aos amorosos braços de seu Salvador, somente nele Maria encontrará descanso e paz para cuidar dela e do seu dependente bebê. Somente com Cristo, Maria poderá ter esperança e vida transformada.

Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus.
2Coríntios 5.18-20

Maria está sozinha?

Não, Maria não está sozinha se ela estiver no corpo de Cristo, lugar onde ela terá comunhão com outras mães e famílias que poderão ser sua referência do amor sobrenatural de Cristo, porque, afinal, depois da queda, nenhuma família é perfeita, mas em Cristo temos alguém que, como irmão mais velho, nos abriu caminho para o céu, para a vida eterna com sua morte e ressurreição. Maria precisa morrer com Cristo para ganhar a ressurreição juntamente com Cristo. Maria precisa se aprofundar no conhecimento de Cristo e ser liberta pela verdade (Jo 8.32).

Maria precisa de discipulado, aaaah, não vamos ficar do lado de fora, apenas assistindo passar a vida de Maria, não é mesmo? Ovelha, hora de ensinar e aconselhar essa moça biblicamente, o pouco ou muito que você conhece da palavra de Deus é bom para Maria, porque, se não falarmos a ela a verdade, alguém poderá estar instruindo-a com uma mentira, porque o universo digital é fácil, rápido e contamina. Abraçar Maria em seu novo recomeço é desafiador, mas lembre-se de que nós somos instrumentos, Deus é quem faz a obra. Estar com Maria e orar com ela, trocar uma fralda do seu bebê ou acompanhar essa nova família a uma consulta médica pode ser o suficiente para Maria reconhecer o amor de Jesus em você e voltar-se para Cristo.

Meus irmãos, se algum entre vós se desviar da verdade, e alguém o converter, sabei que aquele que converte o pecador do seu caminho errado salvará da morte a alma dele e cobrirá multidão de pecados. Tiago 5.19-20

Não vamos apedrejar Maria

Vamos amadurecer em nosso entendimento e buscar conhecer o que o Senhor quer de nós: misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos (Os 6.6). É necessário darmos testemunho de que não somos pessoas perfeitas que vivem vidas imaculadas, mas, porque temos um suficiente salvador, podemos nos arrepender de nossos pecados, sermos perdoadas e, pela graça do Senhor, termos vidas restauradas em Cristo e amarmos ao próximo com aquele amor que transborda as cercas dos jardins floridos de nossa igreja e alcança, nas calçadas do lado de fora, os miseráveis que, sedentos, nos observam.

Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros. João 13.35

Maria, maternidade é dom de Deus. Feliz maternidade para todas as mães!

Versículos citados no texto:

João 10.10 O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.

João 10.28 Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, e ninguém as arrebatará da minha mão.

Tiago 4.8 Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vos outros. Purificai as mãos, pecadores, e vós que sois de ânimo dobre, limpai o coração.

Isaias 55.7 Converta-se ao SENHOR, que se compadecerá dele, e volte=se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar.

Lucas 12.5 Eu, porém, vos mostrarei a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a esse deveis temer.

João 8:11 Então, lhe disse Jesus: Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais.

Por: Renata Gandolfo.
Fonte: Voltemos ao Evangelho

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