O AZUL E O ROSA

Eu não pretendia ocupar meus leitores com essa história gerada por uma conversa da ministra Damares, falando em “menino veste azul, menina veste rosa.” Não pretendia, mas vi que em apenas duas mensagens que postei no Twitter, em menos de três dias tinham, as duas 3.560 opiniões, 21.300 retuitadas, 100.500 likes e 2.050.000 visualizações. Já que senti tanto interesse sobre um tema que passaria despercebido num mundo normal, vou dar mais alguns pitacos sobre o assunto.

A reação mais amistosa à frase foi chamá-la de polêmica. Onde alguns viram polêmica, eu vejo obviedade, chavão, lugar-comum. Pois todo mundo sabe dessa cultura popular, que leva a vestir o bebê menino de azul e o bebê menina de rosa. Quem tiver dúvida, por favor junte 100 casais que tiveram um bebê menino, e pergunte se enfeitariam o cabelinho dele com uma fita rosa. Se houver alguém disposto a fazê-lo, que saia para a rua com ele e a fitinha rosa e vá contando quantas pessoas vão elogiar “que linda menininha”.  Ora bolas, é tão óbvio isso!

O que me preocupa é que a atitude de julgar a frase polêmica, ironizá-la, demonstra alienação em relação à cultura do povo, das pessoas comuns; desconhecimento quase alienígena, como se expressassem essa estranheza com a frase por morar na lua, como selenitas. É como se não conversassem com as pessoas ditas comuns. Quando me referi, no Twitter, sobre a campanha Outubro Rosa, que trata do câncer de mama, e Novembro Azul, para prevenir câncer de próstata, deixei no ar a pergunta se alguém associaria a próstata ao rosa e a mama ao azul.

Agora que tenho me dedicado mais às redes sociais, tenho podido identificar reações do mesmo viés. No domingo, a bandeira de minha casa tremulava ao vento tendo ao fundo um horizonte verde e ao alto um belo céu azul e branco, como se fossem a projeção das cores do nosso pavilhão nacional. Fotografei e postei  no Twitter com a mensagem “Acima de tudo, o símbolo de todos”. Entre as 700 mensagens recebidas, algumas me xingavam pela foto: “Puxa-saco dos militares”. As mais de 400 mil visualizações e os 34 mil likes compensaram a tristeza de perceber que, para alguns, a bandeira nacional não é de todos nós brasileiros, mas apenas dos militares. Onde será que aprenderam isso?

Por Alexandre Garcia (Jornalista)

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