Visitação pastoral: Tipos e orientações

A visita pastoral é uma das ferramentas mais poderosas no exercício do cuidado com as ovelhas que pertencem a Cristo. Os momentos espirituais mais significativos para alguns crentes ocorreram durante o cuidado e atenção que receberam em alguma visita pastoral. A sensação de ser lembrado por alguém que é admirado, a ponto dessa pessoa “abrir um espaço” em sua agenda e para se encontrar com sua ovelha, de fato, comunica uma mensagem que fala diretamente ao coração.

Além do mais, ter o pastor ministrando pessoalmente a palavra de Deus ao crente é uma expressão concreta do seu cuidado pelo rebanho. Também, quando nos momentos de angústia e aflição o crente se sente cuidado, seus momentos de deserto e aridez se tornam mais suportáveis. De fato, todo pastor necessita aprender que as pessoas não se importam com o quanto ele sabe até que elas saibam o quanto ele se importa com elas!

Por outro lado, a visita pastoral não é benéfica apenas para quem recebe, mas também para aquele que a pratica. A experiência revela que, inúmeras vezes, aquele que sai para consolar retorna consolado!

Porém, é necessário esclarecer sobre o que estamos falando, pois muitos pastores contabilizam os encontros sociais, os incidentes informais em que “esbarram” em alguma ovelha no supermercado ou algum outro lugar, como visita pastoral. Conquanto esses momentos possam ser significativos, eles não deveriam ser confundidos com o exercício da visitação pastoral. Antes, a visita pastoral consiste naqueles encontros significativos que criam interações espirituais intencionais, os quais ocorrem, mais especificamente, fora dos limites das dependências da igreja.

Em outras palavras, “a visita pastoral é o ‘ministério da presença’ que o pastor exerce em relação aos membros e visitantes de sua igreja, estendendo pessoalmente a eles o amor de Jesus”.[1] Essas interações podem ocorrer em residências, locais de trabalho, hospitais, prisões ou em algum outro lugar, segundo a necessidade dos envolvidos. A visitação pastoral pode ser considerada como um “ato de amor”, “discipulado” e “amizade” do pastor em relação às suas ovelhas. Essa prática acaba funcionando como “portas de entrada” nos corações e vidas das pessoas, bem como oportunidades para se estabelecer relacionamento e fortalecer a confiança, o que pode ajudar em várias dimensões do ministério pastoral.

Escrevendo sobre esse assunto, Michael W. Campbel identifica quatro objetivos básicos da visitação pastoral: “fortalecer relacionamentos, edificar espiritualmente, reforçar a conexão do crente com a igreja e praticar a oração com as ovelhas individualmente”.[2] Fica claro, assim, que a visita pastoral é uma interação intencionalmente programada e não meramente alguns encontros ocasionais.[3] Nesse sentido, é importante lembrar que “de todos os profissionais, o pastor é o único com o privilégio e responsabilidade de iniciar o relacionamento com as pessoas no ambiente residencial, o qual é o melhor lugar para a interação humana”.[4]

Algumas pessoas que questionam a validade da visitação pastoral deveriam se lembrar de que o princípio bíblico de “visitar órfãos e viúvas em suas tribulações”, o qual é parte integral da verdadeira religião, é uma exigência para todo crente, especialmente para os pastores (cf. Tg 1.27). Além do mais, a prática da visitação é apresentada na Bíblia como uma expressão concreta de amor e cuidado (cf. Mt 25.37-40, Gn 3.8 e Lc 19.1-10). Mesmo após a queda de Adão e Eva no jardim do Éden, o Senhor continuou a visitá-los com o objetivo de cuidar deles (cf. Gn 3.15).[5] Dessa forma, o ministro que conduz corretamente seu trabalho além da esfera do púlpito realizará dez vezes mais do que aquele que limita o seu trabalho atrás de uma mesa.

Diferentes explicações têm sido apresentadas para a diminuição da prática da visitação pastoral, mas talvez a mais coerente seja a falta de planejamento dos pastores em relação a esse exercício. É verdade que o contexto sociocultural influencia nesse sentido, mas ele não pode ser tomado como definitivo. Franklin Dávila corretamente se posiciona quanto a essa questão, dizendo: “se os cristãos desta sociedade contemporânea não passassem por crises de fé e por lutas espirituais, eu concordaria plenamente com os que se opõem a esse ministério”.[6] Ao que tudo indica, muitos pastores quase não visitam porque não se programam nesse sentido.

Alguns pastores parecem satisfeitos em manter um relacionamento superficial com o rebanho, o que resulta em generalizações no púlpito e contribui para eventuais esvaziamentos nos bancos da igreja. Por outro lado, os pastores mais eficientes na prática da visitação não ficam apenas esperando serem convidados por suas ovelhas, mas desenvolvem estratégias proativas para alcançá-las.

Em sua experiência ministerial, Franklin Dávila desenvolveu um método interessante e recomenda os jovens pastores a que façam algo semelhante. Segundo ele, “é importante que o pastor tenha uma agenda e, em acordo com os irmãos, deixe que eles marquem nela o dia e a hora para a visita”.[7] Com isso, não apenas o pastor, mas também os membros da igreja acabam participando do planejamento.

Quanto à natureza da visita pastoral, é possível distinguir três categorias comuns e extremamente relevantes no cuidado com o rebanho. Primeiro, há a visita preventiva ou regular, que ocorre ordinariamente e deve ser realizada sem que haja algum problema específico, sendo útil para manter o contato entre pastor e ovelhas. Segundo o pastor Franklin, “esse tipo de visita é importante, porque dará ao visitador a oportunidade de conversar, tirar dúvidas, esclarecer pontos e, ainda que não possam aquilatar os resultados, muita coisa pode ser evitada no futuro por causa desse encontro”.

Também há a visita curativa ou terapêutica, que é aquela visita extraordinária, na qual o pastor se dirige a alguém que está necessitado da sua presença, conselhos e cuidado específico. Franklin explica que a motivação dessa visita é a necessidade da ovelha, ou seja, “a ovelha está precisando ser visitada por estar enfrentando alguma dificuldade. Necessita ser assistida, sarada e fortalecida”.[9] Nesses casos podem ser incluídas as visitas a enfermos (casas ou hospitais), aos enlutados ou visitas a famílias em crise.

O objetivo é sempre apresentar o remédio da palavra de Deus ao coração sofrido. Por último, há a visita corretiva ou reparadora, na qual algum problema moral, relacional ou de crença deverá ser abordado. O objetivo dessa visita é cuidar para que o erro não se propague no Corpo a ponto de contaminar outros. Alguns pastores se limitam a zelar pela correção apenas do púlpito, mas o discipulado e a admoestação pessoal, ainda que mais difíceis, podem também ser qualitativamente mais benéficos. O elemento unificador desses três tipos de visitação é a intencionalidade com a qual elas são desenvolvidas. Em outras palavras, não se trata de “encontros acidentais”.

Um assunto espinhoso em relação à visitação pastoral é o aspecto ético a ser observado pelos praticantes dela. Por desconsiderarem essa questão, alguns obreiros acabam causando mais males do que bem ao Corpo de Cristo e outros até se envolvem em casos escandalosos. Para que o objetivo da edificação seja atingido, é necessário agir com prudência nessa prática. A esse respeito, o pastor sábio sempre evitará visitar alguém do sexo oposto quando estiver desacompanhado, especialmente em se tratando de mulher casada, se o marido dela não estiver presente.

Há que se fugir não apenas do mal, mas também da aparência do mal. Também, é importante que o visitador não permita que a conversa se desenvolva sobre a vida de alguém que não esteja presente para se defender ou prestar esclarecimentos. Muitos intrigas e dissentimentos são alimentados quando isso ocorre. Nenhum pastor precisa saber sobre a vida de alguém por meio da narrativa de outros. Finalmente, o pastor deve cuidar para não usar os casos e as particularidades da vida doméstica de suas ovelhas no púlpito, como “ilustrações de sermão”. Enfim, se o pastor não cuidar dessas questões éticas, “não demorará muito e logo todas as casas estarão fechadas para ele”.[10]

Finalmente, é necessário considerar o que deve ser feito na visita pastoral, ou seja, como deve ser o seu modus operandi. Embora não exista nenhuma norma específica para esse processo, alguns princípios gerais podem ser observados. Por exemplo, uma das primeiras coisas a serem feitas é a preparação do pastor para a visita a ser realizada. Em um artigo sobre esse assunto, David Murray diz que se prepara para visitação pastoral com alguns minutos de oração em prol da família a ser visitada, bem como do assunto a ser abordado naquele evento.

Feito isso, ao chegar ao local, creio ser importante o pastor esclarecer às pessoas quanto tempo sua visita durará. Alguns parecem não perceber que a visita longa pode ser extremamente inconveniente para suas ovelhas, que possuem outras atividades (interações em família, estudados, atividades profissionais etc.). O estabelecimento inicial de um período ajuda até na atenção a ser dedicada pelas ovelhas ao ministro e ao que ele tem para ensinar.

Além disso, Murray sugere que os quinze minutos iniciais sejam dedicados ao diálogo sobre o que tem acontecido na vida da família, coisas sobre o trabalho, criação de filhos, escola e assim por diante. Se há algum acontecimento importante no âmbito nacional ou local, ele também inclui o assunto como parte da conversação inicial. O cuidado a ser tomado nesse sentido é quanto ao perigo de se perder em meio a algum assunto interessante e esquecer o propósito “espiritual” da visita. Por isso, retomar o assunto para a conversação sobre as questões espirituais é o terceiro passo a ser observado.

Uma sugestão muito prática feita por Franklin Dávila é que o pastor evite “monopolizar” a conversação. Um dos objetivos da visita é conhecer melhor suas ovelhas e se o pastor não permite que as pessoas nesse momento emitam suas opiniões e expressem suas dúvidas, esse alvo não será atingido.

Quanto a isso, Franklin nos lembra que “as palavras pastorais ditas numa visita podem germinar para o bem ou para o mal. Podem abater os espíritos ou abater as almas… Se não tivermos uma boa palavra para o momento é melhor ficar em silêncio. Jamais seremos punidos se ficarmos em silêncio”. [12] Portanto, sensatez e juízo crítico são bem-vindos nesses momentos.

Há ocasiões em que o processo de direcionar a conversa para questões espirituais pode ser fácil, especialmente dependendo da necessidade ou maturidade da pessoa visitada. Porém, há outras situações em que esse enfoque poder ser muito difícil e isso ocorre nos casos em que a pessoa visitada insiste em permanecer conversando sobre as questões triviais da vida.

Se o pastor não atentar para essa armadilha ele pode usar o tempo dedicado à visita em interações que não resultarão no progresso espiritual de suas ovelhas. A fim de retomar o interesse espiritual da visita, David Murray sugere que, se necessário, o pastor intervenha com algumas perguntas como:

  • Há alguma coisa pela qual você gostaria que eu orasse?
  • Qual porção da Bíblia você tem lido ultimamente? Alguma coisa que lhe chamou mais a atenção?
  • Quais as dificuldades que você tem tido em sua leitura bíblica?
  • Há algum assunto que você gostaria que fosse abordado em um sermão dominical?
  • Você tem sido ajudado por algum sermão em particular? Sobre o que ele dizia respeito?
  • Você tem lido boa literatura cristã ultimamente?
  • Quais dons espirituais você acredita ter recebido do Senhor? Como você acredita poder exercitá-los em nossa igreja?
  • O que as crianças estão aprendendo na Escola Dominical?

A lista de Murray inclui outros tópicos, mas o resumo acima é suficiente para ilustrar como apenas uma pergunta pode ser suficiente para direcionar a conversa para o propósito da interação que deve ocorrer em uma visita pastoral.

Em quinto lugar, o pastor deve abrir as Escrituras e compartilhar de maneira rápida e objetiva alguma passagem que seja relevante à situação da família (ou pessoa) visitada. A instrução bíblica não é opcional, mas uma parte inegociável da visita pastoral. Esse é o elemento da visita que provavelmente somente ele poderá realizar com sabedoria e autoridade. Se ele se esquece ou omite essa prática na visita, a mensagem comunicada é que a interação foi mais importante do que a edificação.

A melhor maneira de se observar essa prática é fazer “anotações mentais” durante a conversação a fim de selecionar uma passagem bíblica que melhor se aplique à realidade da pessoa visitada. Lido o texto, ele pode até perguntar às crianças (se existir alguma) sobre o que entenderam sobre o texto lido, pois essa é uma boa maneira de engajá-las no estudo bíblico e, também, observar o quanto seus pais têm conversado com elas sobre a Palavra de Deus.

Finalmente, conclua a visita com uma oração pelos assuntos conversados durante ela. O derramar de nossos desejos e preocupações diante do Senhor, além de ser um exercício devocional, também é pedagógico, pois o pastor poderá ensinar suas ovelhas a apresentar “tudo a Deus em oração”. Ao fazer isso, o obreiro estará, paralelamente, dando provas concretas do quanto ele ouviu com atenção tudo o que suas ovelhas lhe disseram durante aqueles minutos de interação.

Em havendo oportunidade, é importante que o pastor deixe alguma literatura que poderá ser útil aos visitados. Além de demonstrar carinho por meio desse ato, ele contribui para a instrução espiritual por meio de boas obras literárias.

Outras sugestões poderiam ser oferecidas quanto a algumas visitas específicas em hospitais ou prisões, mas isso demandaria outro artigo. Para o propósito dessa pequena reflexão, creio que o que foi abordado tenha sido suficiente.

Por: Valdeci Santos. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com.

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