Matar mendigos pode ser a solução

O que fazer com aquilo que desagrada, ofende, incomoda? Manter longe dos olhos, escondido no fundo da gaveta ou em uma caixa lacrada na despensa podem ser alternativas. Agora, o que fazer quando alguém te causa desconforto ou, mesmo silenciosamente, te expõe a uma realidade desagradável ou inaceitável? Para alguns, por mais inacreditável que possa parecer a uma sociedade dita civilizada, matar é a melhor saída.

Tive três encontros com Jô Soares e um deles aconteceu logo após a morte do índio Galdino, incendiado por cinco jovens de classe média em Brasília enquanto dormia em um ponto de ônibus. Em sua defesa, os jovens afirmaram que só fizeram a “brincadeira” porque acreditavam ser o homem um mendigo. Uma afirmação repugnante que deixava ainda mais clara a visão preconceituosa e violenta do grupo. Durante minha conversa com o apresentador, fiz questão de ressaltar minha indignação com o fato, mas, principalmente, minha preocupação com os moradores de rua, vulneráveis a todo e qualquer tipo de violência.

Passaram-se mais de duas décadas daquele episódio e a população de rua continua sendo alvo fácil de quem pensa que matar mendigos pode ser a solução para os problemas sociais ou para descarregar sua raiva incontida e incontrolável. Nos últimos quarenta dias, sete mendigos forma mortos em São Paulo: envenenados, queimados, assassinados a bala. Se já não bastasse o frio, a fome, a solidão, mais que nunca eles precisam se manter a salvo das pessoas.

Enquanto escrevo esse artigo, fico me perguntando o por quê de tanta violência gratuita e inaceitável. E não apenas contra os moradores de rua, mas contra pessoas que pensam, vivem ou acreditam em algo diferente do que o agressor acredita ser o correto. Por que alguém espanca um homossexual, incendeia um terreiro, ofende um negro ou imigrante, quebra a imagem de uma santa ou vandaliza uma igreja? Por que as diferenças deixaram de ser discutidas e passaram a ser violentadas? Por quê?

Somos seres ditos civilizados, mas, infelizmente, temos vivido como selvagens. Agredir, ofender, matar não pode ser a opção. Sou radicalmente contra qualquer tipo de discriminação contra qualquer pessoa, seja qual for sua crença, opção sexual, condição social, cultural ou política. Não concordar com o que o outro pensa não me dá direito de tratá-lo desrespeitosamente, agredi-lo ou agir com violência. Não é isso que Deus espera de nós.

Matar pessoas como forma de protesto ou agredi-las física ou verbalmente em seus direitos é algo que insulta a Deus e desperta Sua ira. Ele nos criou à Sua imagem e semelhança e ordenou que nos amássemos uns aos outros porque Deus é amor e somente a disseminação desse amor poderá nos tirar dessa torrente de violência gratuita que só traz morte, dor e desamor.

Gosto muito da letra da canção de Renato Russo que diz que “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”. Amo as cartas de Paulo, especialmente I Coríntios 13: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria” (I Coríntios 13:1,2).

O amor é a solução para os conflitos. Somente o amor é capaz de reverter essa onda de ódio que ceifa vidas e dissemina rancor e violência. Precisamos orar, rezar, interceder, clamar para que Deus nos dê um coração de carne semelhante ao Seu e não de pedra; para que tenhamos disposição para o diálogo e compreensão com o que não concordamos; para que possamos convencer pelo exemplo e pelo que a Bíblia nos ensina. Ajuda- nos, Senhor, a amar e a demonstrar amor.

Rev. Wildo dos Anjos é presidente e fundador da Missão Vida, instituição filantrópica pioneira no Brasil na área de recuperação de mendigos. Casado com Rosane é pai de quatro filhos. Pastor, administrador, servidor público e articulista de um jornal de Goiás, é autor de dezenove livros, já pregou em todas as capitais brasileiras e em mais de 50 países. Contatos: presidencia@mvida.org.br Fone: 62 3318 1985

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