Síndrome da lagartixa

Antes de morar sozinho, desenvolvi longa amizade com Gertrudes, saudosa lagartixa da casa onde morávamos eu e mamãe. Hoje, morando distante, agora noutra cidade, conheci e me afeiçoei por Vera, amiga lagartixa, de personalidade forte, que habita já há tempos meu lar doce lar.

Dias atrás, conversando com um desses destemidos profissionais de controle de pragas, ele dizia para não maltratarmos ou matarmos as lagartixas, pois, queridas que são, prestam grandes serviços a nós e à proteção de nossas casas. Lagartixas alimentam-se de inúmeros insetos que nos fazem mal, como baratas, moscas, aranhas e até pequenos escorpiões.

De porte dessa informação, eu, afeiçoado que já era por Vera, comecei então a trocar pequenos diálogos com a cinzenta, dando-lhe bom dia, perguntando-lhe como ia a vida, a família, se tinha fome, se havia dormido bem, enfim, coisas assim, naturais às relações comuns de dois amigos que partilham do mesmo habitat, afinal das contas, eu havia descoberto que Vera era uma espécie de guardiã da minha casa, e por isso mesmo, gostaria de estreitar laços, ser amigo dela!

Entretanto, para a frustração das minhas expectativas, Vera nunca interagiu muito. É do tipo difícil, recatada, silenciosa. Quando chego aos ambientes onde Vera está, ela já vai logo dando um jeito de se esconder estabanada num canto qualquer, por debaixo dos armários ou por detrás da geladeira.

Mas não se apressem em julgar a pobre! É que Vera não quer incomodar, penso eu; e também não deve querer ser incomodada. Vera está inserida nos novos padrões das relações modernas, está contente com a nossa amizade (?) utilitarista: eu forneço a ela um lar, um teto para os dias de chuva, e um espaço respeitável onde ela é a rainha da insetolândia, em contrapartida, ela me oferece seus preciosos serviços de cherifona das pragas nojentas. Nem ela fica me enchendo as paciências com conversinha mole, nem eu fico tomando seu tempo em busca de amizade e companhia — a danada nem me dá brecha pra isso.

Ora, se não é essa a relação mais mesquinha e covarde que poderíamos ter! Tudo acabou, entre eu e Vera, em mero interesse, objetivo e calculado. Vera, por mais que você leitor ache isso ridículo, querendo ou não, num certo momento me fez ver meu mundo com um olhar mais atento, mais crítico. Me ajudou numa radiografia mais profunda de meus interesses e relacionamentos. Me fez enxergar quão utilitarista também sou, me fez ver como faço o máximo para me relacionar com as pessoas de forma mínima, e, de como faço o mínimo para me relacionar com as pessoas de forma máxima.

É a síndrome da lagartixa. Que privilegia a funcionalidade, a comodidade, e o interesse próprio acima de tudo. Interesse próprio que, todavia, é néscio, pois se conhecesse mesmo das coisas, saberia que melhor coisa é dar do que receber.

É a síndrome da lagartixa. Que me faz enclausurar-me em mim mesmo. Que deseduca sobre as formas mais nobres de existir. Que priva sumariamente quem dela sofre, da descoberta real do que significa viver, com verdade, as relações de amor e amizade em todas as suas mais distintas, complexas e antagônicas realidades.

É a síndrome da lagartixa. Que nos vende a ideia vazia de que o que importa é o destino e não o caminho. De que importante mesmo é a funcionalidade das coisas, das pessoas, das relações, e não a beleza transcendente e onipresente que nelas há, como se uma coisa não pudesse coexistir com a outra.

A síndrome da lagartixa atrofia o coração que ama, paralisa os braços que abraçam e tapa os olhos que contemplam; ao mesmo tempo em que rouba a autopercepção daqueles que dela sofrem, quanto à arritmia, paralisia e cegueira existenciais que já tomaram conta de suas frágeis consciências.

Creio que ainda não esteja eu em estado terminal, de qualquer forma, ao chegar em casa agradecerei à Vera, pois mesmo contra sua vontade e sem sua mínima intenção, já tenho lições pra vida inteira a aprender com ela, ainda que seja, principalmente, do que não fazer.

Por: Lucas Freitas. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com.

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